" Idolatrado por todos, denegado por cada um, eu era um pago-por-cota e não contava senão com recurso a mim que não existia ainda, palácio de espelho deserto onde o século nascente mirava o seu tédio. Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo; conhecera até então apenas as vaidades de um cão de luxo; acuado no orgulho, tornei-me o Orgulhoso. "
Jean-Paul Sartre
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Wednesday, October 06, 2004
O relógio me tira das profundezas exatamente às 05:30 da madrugada. Queria voltar, mas esse meu abismo depois das badaladas não é mais tão profundo assim. Corpo dolorido pela tensão que não dá trégua nem durante o sono. Reviro tentando me deliciar em mais quinze minutos propositadamente adiantados no relógio, mas desisto. O corpo dói. E a perspectiva de mais um dia também.
Sento na cama. Estico braços e pernas durante um bocejo e sinto dores mais fortes após o inevitável estalar de ossos. Enfio a mão na cueca. Esbarro na ereção matinal mas o meu destino é o saco. Aproveito alguns minutos para coçá-lo. Não penso em nada. E nem quero pensar. Coço lentamente.
Não sei quanto tempo depois abro o criado-mudo e retiro o velho trinta-e-oito. Metodicamente, enfio a mão na pequena gaveta, apalpando até encontrar minha única bala. Respeitando a rotina, sem precisar acender a luz (já que o dia insiste em estuprar as frestas da janela), coloco o frígido metal no tambor e giro.
Sem maiores expectativas encosto o cano na têmpora. Aperto o gatilho. Nem de longe estou esperançoso. Só ouço o seco click. Mais uma vez, só o click. Que tipo de barulho ouvirei no dia? Espero não ouvir.
Devolvo o gélido ferrão ao lugar de origem. A ereção já passa a incomodar. Levanto. Dou uma boa mijada e me prepararo para mais um dia como escriturário do Banco do Brasil.
Posted at 06:01 am by estro
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Saturday, October 02, 2004
Quando criança fez da matemática matéria preferida como método de fuga. Cheirava carreiras de expressões numéricas exatamente resolvidas sobre um reles espelho de números primos, olhando de relance sua própria expressão triste que negava, deliberadamente, Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Plínio Marcos.
Comemorou o dia em que, depois de uma semi-overdose pitagorista, queimou com gosto e álcool todos os livrinhos, comprados com dificuldade por seu avô feirante sob recomendação da professora de português, da Coleção Vaga-lume.
Negou por boa parte da vida Bukowski, Nietzsche e outros eufémicos que seriam frisson entre os intelectuais pós-modernos. Jamais viria a conhecer Medina Reyes. Apregoava Neruda e Garcia Marquez como mero passatempo de mulheres solitárias ou de afeminados com propensão a Letras ou Decoração de Interiores. No radicalismo optou por Desenho de Construção Civil em seu primeiro vestibular numa escola técnica federal. Passou. Engatinhava rumo a Engenharia. Era o segredo do sucesso. E da vingança.
Vingar-se-ia, mesmo que no subconsciente, de Dn. Fernanda. Aquela senhora depravada que na terceira série expôs ao mundo seus infantis erros ortográficos em parceria com suas mãos trêmulas e suadas na hora da leitura. Sim, aquela senhora que escrevia palavrões escabrosos na lousa e que se negava a escrever 'ticket' com ck e t mudo. - ...'Tíquete do mercadinho!!' - bradava contra o mundo. Aquilo definitivamente não poderia ter sido professora de primário. Onde estaria Deus enquanto uma de suas crianças era ridicularizada por um simples 'nescessário' com 'sc'?? Alguns dos algozes chicotes sobre a lomba de Cristo não poriam ser grafados com 'x'?? Abraão de fato teria 'conciência' que estava para imolar seu filho e que se esquecera de um 's' na palavra?? E a 'bomba' branca da paz?? Porque causava tantos risos??. Naquele dia a sensação aterrorizante que a ortografia lhe ofereceu ditaria seu futuro à Engenharia. Civil?? Química?? De Processos de Produção?? Pouco importava. Apenas provaria a Dn. Fernanda que não merecia o título de 'o burro' seguido e uma exposição pública naquela tarde quente e nauseante de 1985: seria um engenheiro. Quem, diante da maravilha de um cálculo quântico se importaria com a pequenez do som de 's', 'sc' ou das terminações em 'xis' com sons de 'zês'?? Com um diploma de exatas na mão nenhum erudito metido a intelectual ou mesmo uma professora de primário teimariam em discutir Marcel Proust ou Dostoiéviski com ele. E, se o fizessem, estaria desobrigado a divagar sobre. Lançaria mão de um nobre discurso, também cheio de citações, sobre as novas tendências dos cálculos de nós genéticos e quânticos de acordo com as teorias de William Tomson.
Só que não esperava, ao menos naquela altura do campeonato, que uma simples entrevista no programa do Dr. Dráuzio Varela na RBI poderia derrubar-lhe do pedestal de tanta segurança. Uma neurocirurgiã anônima (uma pena! já que isso poderia render mais uma citação epistemológica!) lhe revelava através da tela chamuscada por uma ventania na antena que, todas as pessoas que sofrem de dislexia tem, além de vários outros sintomas, uma grave falta de coordenação para identificar de imediato os lados esquerdo e direito. Enfim estava explicado aquele ridículo número oito esboçado no ar toda vez que precisava orientar o motorista do táxi. Mas, além disso, estava desmistificado todo seu suposto amor as ciências exatas e inumanas. Seus erros ortográficos passaram a ser justificados por uma certa desordem numa dessas 'ninas' que permeiam nosso cérebro. Descobriu, naquela hora, que sua suposta burrice ortográfica ganhara status de uma elegante disfunção com direito a 'xis' ao som de 'quiss' - Dislexia!!! Poderia agora argumentar suas agruras literárias como defeito físico!!
A matemática, embora sempre encantadora, já não lhe proporcionava o mesmo prazer orgásmico: fora promovida (ou rebaixada!) de paixão fugas de portão ao namoro de sofá com direito a sogro, sogra e pizza durante o Zorra Total. Kafka e Huxley passaram a permear seus sonhos (seres imaginários, esses, já que há muito alegava que escritores não existiam!). Pipocavam com intensidade. Era um bom e incontrolável inferno.
Uma explosão?! - embora clichê, seria a única maneira de definir sua súbita paixão pelos livros. Ao lado a exatidão. Abraço às letras.
Agora passa algumas vagas horas tentando recuperar o tempo perdido (com um q de frustração, evidente!), engolindo livros, um atrás do outro, desrespeitando todo o processo de digestão. Até se arriscou numa dessas ferramentas dos tempos modernos: o blog. E se lembra, agora saudoso e com um toque de sátira, de Dn. Fernanda quando algum leitor afoito lhe manda emails de correção.
E tudo isso foi possível graças aos corretores ortográficos online. Santa modernidade.
Posted at 07:56 am by estro
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Thursday, September 30, 2004
O que espertou Virgínia, além do horribile gustu de corrimão de metrô na boca, foram os Versos Íntimos de Augusto dos Anjos meio cantados num tom indecifrável e sibilante por uma voz incomum: "Vês?! Ninguém assistiu ao formidável enterro da tua última quimera..." De fato, ela ansiava que ninguém tivesse assistido. Queria somente a ingratidão pantera como única companheira daquela noite.
No susto abriu os olhos. Arrependeu-se. Cerrou-os burlescamente tentando se lembrar de todos os passos do dia anterior. "Um horrendo dia de trabalho na Livraria Cultura e depois uma espairecida solitária num barzinho dito cultural nas imediações da Paulista, mas que de fato, é freqüentado por um bando de playboyzinhos metidos a artista com mania de incomensuráveis citações de obras do underground".
Lembrou-se da primeira cerveja, ainda solitária, ao som de Jeorge Benson. Da segunda ao som do violão dilacerante de Yamandú Costa. E depois, durante a seleção do Moska, alguém lhe ofereceu martini doce. Não conseguiu recordar de mais nada. Nem onde havia guardado o Mrs. Dallaway que teimou em levar a tiracolo. Sim, Virgínia Woolf, sua xará e dona do seu estro, vomitaria se soubesse que ela deu pr'aquele poetinha mórbido, urbano e desprezível que tinha a mania de, depois de algumas doses, subir numa mesa qualquer e recitar obras incompletas ou plagiadas que teimava em dizer que eram suas. Sim, ela deu...
A coitada não agüentou. Chorou enquanto escondia com o lençol a pequena bunda branca que existia entre suas estrias.
Tomada pela angústia de Clarissa Vaughn, resolveu voltar pra Igreja. Lá, ao menos o padre era parecido com Ed Harris e a cultura parava nos gritinhos histéricos de "...somos tão jovens..." acompanhados de, no máximo, três acordes simples nos intervalos do grupo de jovens.
Posted at 08:57 am by estro
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