" Idolatrado por todos, denegado por cada um, eu era um pago-por-cota e não contava senão com recurso a mim que não existia ainda, palácio de espelho deserto onde o século nascente mirava o seu tédio. Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo; conhecera até então apenas as vaidades de um cão de luxo; acuado no orgulho, tornei-me o Orgulhoso. "

Jean-Paul Sartre


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Thursday, October 28, 2004
Baba de Moça

(republicação)


Aquela sensação de frescor causada pela falta da peça íntima, revelava-lhe uma coragem absurda, que nem de longe imaginava ter.

Antes de atravessar o quintal, borrifou sobre a pele um perfume suave de vanila. Abriria o apetite de sua presa. Molhou levemente a nuca e pulsos para amenizar o calor estonteante de interior paulista. Sem vento, assoprou dentro do vestido de tecido leve e estampado com flores tom pastel. Passou um claro baton. Retirou em seguida com o punho. Queria parecer primitiva. Livrou-se dos chinelos. Descalça seria mais selvagem. Despudorou-se, enfim, das peças íntimas, deixando as pontas dos seios marcarem o pano leve, provocante. As coxas abriam e fechavam. Olhava no espelho, com ares de devassa, as partes roseadas cobertas por pelos negros mal aparados. Era a libertação. Atravessar o quintal sem as amarras sufocantes das peças íntimas.

O toque do pé na grama, excitou-a. Uma brisa morna adentrou o seu vestido. Sentiu calafrios. 'Que sensação maravilhosa' - pensou. Descobriu naquela hora que o perigo aguçava-lhe a libido. O trajeto no quintal pareceu infinito. Infinitos dez passos da porta da cozinha até a porta da garagem onde labutava seu esposo. De longe ouvia o choro manhoso de sua criança e sentia o cheio forte da lingüiça paio que cozinhava  no feijão. O cheiro deixava insignificante seu perfume de vanila, mas nem de longe tirava-lhe o desejo. Rasgava-lhe o interior, o tal desejo. Sua carne tremia sobre os ossos de desejo. E o calor. Aquele calor da excitação que sobe pelos lados do pescoço deixava seu rosto vermelho e a pele mais quente. Sua respiração ofegante quase a impediu de falar:

- Não quer parar um pouco?

O esposo estava sob um carro. Concentrado num pequeno vazamento de óleo. Nem deu importância ao convite.

- Tá cedo ainda para comer - respondeu, grosso, sem desperdiçar com ela atenção.

Pulou felina sobre o capô. Abriu as pernas. Começou a se mexer, balançando forte o carro suspenso apenas pelo frágil macaco. Passou a pular, ignorando as admoestações do marido. Era o puro prazer. Primitivo. Caprichou em seus esforços, fazendo o suporte envergar. Parou apenas quando escutou um grito medonho e o estrondo forte das rodas caindo ao chão. Ficou em posição de gata. Olhando para o chão desceu com cuidado, pois descalça, não queria manchar os pés de sangue. Saiu da garagem para atravessar saciada, sem as malditas peças íntimas, o quintal.

Desta vez foram mais de dez passos. Não voltou a cozinha. Saiu pelo portão. Dentre suas pernas bambas escorriam algumas gotas de um líquido espesso. Baba de moça. Nunca sentira tão boa sensação.

Posted at 08:14 am by estro

Lektor
October 28, 2004   09:57 AM PDT
 
Sem assunto? Por que uma "republicação"?

Trata-se de um texto que segue nos mesmos moldes dos dois últimos textos do Sr. Garcia do Dezessete do Oito. Por quê? Por que a semelhança de estilo?

Apesar de excitante e animalesco, o texto não passa nenhuma moral que enriqueça os bons costumes e, sobretudo, enriqueça a boa literatura que tanto falta em nosso país.

Ps.: gostei do "Ficou em posição de gata."
Júlio
October 28, 2004   10:38 AM PDT
 
Veja Lektor: para que discutir contigo os motivos da republicação ou sobre o estilo ser parecido com esse ou aquele? Não vejo fundamento nisso.

Como já disse lá no seu mais novo blog não tenho compromisso nenhum com 'os bons costumes' (o que seria isso?) ou em enriquecer a 'boa literatura brasileira' como você o faz (???).

Eu só queria escrever um texto que fosse excitante e animalesco. Objetivo esse que vejo ter atingido graças a sua boa crítica.
Lektor
October 28, 2004   11:02 AM PDT
 
Tá bom! Não precisa ficar brabo!
Veja bem, em tudo que eu escrever sempre haverá alguns "poréns", senão não haveria a menor graça. foi por falta disso que eu havia deletado meu blog Moinho de Letras, por falta de debates mortais em torno da literatura.
Em todo caso meu novo blog Meus Contos não durará muito tempo e logo logo logo mesmo eu volta às minhas criticas de sempre. ainda não terminei com Paulo Coelho!
Júlio
October 28, 2004   11:18 AM PDT
 
Mas Lektor... nem de longe fiquei brabo contigo. Haveria motivos para isso? Gosto de crítica. É sério. Os textos estão aí para isso. Caso não quisesse manteria-os impublicados como sempre fiz.

Seja sempre bem vindo com seus 'debates mortais'. (risos)
Werther-Pan
October 28, 2004   12:12 PM PDT
 
Boquiaberto!!!!
Bravo, bravíssimo! A melhor coisa que li nos últimos tempos. O mundo precisa ouvir isso!!!
Lektor
October 28, 2004   12:43 PM PDT
 
... amiguinhos... então...
William
October 29, 2004   11:01 AM PDT
 
Risos, o Lektor apesar de tudo é um cara engraçado.
Lektor
October 29, 2004   11:49 AM PDT
 
Apesar de tudo... o quê? Conte-me!
Camila
October 29, 2004   01:49 PM PDT
 
medo dessas mulheres-bichos. perigosíssimas. vocês homens, zelem pelos seus pertencem.
Camila
October 29, 2004   01:50 PM PDT
 
retrucando sua pergunta: como?!
Camila
October 30, 2004   12:03 PM PDT
 
contra-resposta da partida inicial: agora aqui, alí...meio egoísta, fechada mais que de costume.
Lektor
November 3, 2004   02:47 AM PST
 
Seria de muito bom tom tentar "republicar"outra coisa agora...
Camila
November 3, 2004   05:44 AM PST
 
agradáveis somos! beijo
Werther-Pan
November 3, 2004   09:02 PM PST
 
Oi, só pra lembrar que estamos de blog novo e contamos com sua luxuosa visita. Abraços...
Marpessa
November 10, 2004   07:09 AM PST
 
!!!!
 

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