" Idolatrado por todos, denegado por cada um, eu era um pago-por-cota e não contava senão com recurso a mim que não existia ainda, palácio de espelho deserto onde o século nascente mirava o seu tédio. Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo; conhecera até então apenas as vaidades de um cão de luxo; acuado no orgulho, tornei-me o Orgulhoso. "

Jean-Paul Sartre


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Friday, October 15, 2004
De palavras fáceis

Em dez minutos o rádio-relógio te acordará.
Você dorme de uma forma bela, diferente, não sei... Nunca cansei de te ver dormir mesmo depois desses anos todos. Tua imagem não me cansou. Literatas palavras eruditas não me faltariam para te descrever assim, tão shakespeariana. Mas dispenso as belas formas em homenagem ao teu suposto sono.

Falta pouco. Hoje é o dia em que vou embora. Deixei para última hora o terror em te falar isso. Não sei falar essas coisas que te magoam. Em dez minutos te magoarei. Tem de ser ao acordar. Horas a mais aumentariam a tormenta.

O relógio me condena com o primeiro açoite. Pelo teu respirar sei que finge dormir tanto quanto eu. Viro para calar o contratempo e aproveito para te dar as costas. Esta será a primeira de muitas daqui pra frente.

Sinto seu beijo úmido em minha nuca. E esse sopro para resfriar a saliva me causa arrepios indefiníveis. Sua língua já tão bem acordada percorre meu pescoço. Estou teso, o misto de desejo e medo petrificam a ereção. Não há como negar ao toque da sua mão. Meu corpo me condena e sempre teima em dizer o oposto do que quero falar.

Me fervilha a consciência e teus dedos me queimam o falo. 'Deus, me deu o corpo para a condenação?'. Gostaria que nessa hora masturbasse a minha mente e que as palavras certas ejaculassem em gozo farto.

Mas não! Tua boca quente me amorna a brasa e deliro em suspiros numa contradição banal entre pensar e sentir. Os gemidos de angústia se misturam aos da leve dor do prazer. E eu ali, em momentos eternos a te corresponder em partes púdicas, comendo teus suspiros de gosto. Imaginando teus soluços de choro.

Me prende a pélvis pela boca como se esta fosse a última vez. E de fato a é. Tenho alguns minutos antes de terminar. Tenho o tempo necessário para aprender a dizer as coisas que te magoam.

No ímpeto te seguro a cabeça e maldosamente me acabo antes que se afaste. O gosto meio amargo da agressão não foi o suficiente para que me odiasse. Como queria que agora me odiasse. Por hoje. Mas indevidamente me ama. E demonstra. E agradece. Como se abrisse o peito para uma primeira facada.

O olhar mudo é prenúncio.
Tem de ser agora.
As palavras ensaiadas durante a madrugada parecem perder o sentido ante a luz fraca que adentra a fresta da janela. Palavras de adeus têm medo da claridade. Eu tenho medo da claridade. Estou com vergonha de te encarar na luz.

- Tenho uma coisa pra te dizer.

- Psssss... Não precisa falar nada.

E antes que eu responda, me cala com um beijo amargo de gosto meu.
Você sempre soube que hoje começa o fim.

Posted at 12:22 pm by estro

Marpessa
October 16, 2004   09:05 AM PDT
 
um espanto. muito belo, julio. parece uma pintura... vou passá-lo a um amigo, que saberá apreciar este texto tanto quanto eu.
bj
William
October 16, 2004   10:25 AM PDT
 
É sim.
CARLOTA REGINA
October 17, 2004   12:44 PM PDT
 
ARTISTAS SÃO MOVIDOS POR SENTIMENTOS E OUTRAS FIXAÇÕES.NESTE TEXTO VOCÊ ENTREGA ESSE PEDAÇO DE SI...
METÁFORA,ANALOGIA OU SIGNIFICAÇÃO ÓBVIA?ESSAS SÃO AS NOSSAS POSSIBILIDADES (AS PRIMEIRAS,SUBJETIVAS).SAUDADES?SEMPRE TENHO SAUDADES DOS QUE ME FAZEM SENTIR FOME.BEIJOS E ABRAÇOS DA SUA ANTROPÓFAGA DE MINUTO,C.R.
Fabinha
October 18, 2004   12:23 PM PDT
 
Júlio, gostaria de dizer que o verdadeiro artista precisa apenas da alma para escrever... o resto fica em segundo plano.

Parabéns por estar nos presentiando com esses lindos textos!!!
Camila
October 20, 2004   04:15 PM PDT
 
- bom dia. o fim é aqui. já me doeu isso. hoje eu sou muralha. [e mentirosa]
 

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