" Idolatrado por todos, denegado por cada um, eu era um pago-por-cota e não contava senão com recurso a mim que não existia ainda, palácio de espelho deserto onde o século nascente mirava o seu tédio. Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo; conhecera até então apenas as vaidades de um cão de luxo; acuado no orgulho, tornei-me o Orgulhoso. "
Jean-Paul Sartre
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Thursday, November 11, 2004
Acordei berrando um 'O quê?' assustado e ofegante.
Alguém gritou meu nome nitidamente. Bravo, como se fosse cobrar uma dívida. Tremi. O silêncio devia ter uns vinte e oito quilos e quase trinta e quatro graus. Tentei me localizar em alguma fresta de janela, mas como o apartamento é novo demorei para recobrar a oriente. Consegui. Graças a uma sirene estridente na rua e ao relógio do vídeo cassete piscando zero hora constantemente. Zero, zero, zero, zero... Umas três e meia da madrugada, talvez. Eu não me lembrava de uma noite tão escura nos últimos tempos.
Tentei sentir meu corpo dificultado pela dormência dos membros. Percebi que ainda usava sapatos. Horrível sensação já que cumpro religiosamento o ritual banho-perfume-pijama antes de deitar. Uma velha jaqueta de couro marrom me sufocava . Minhas mãos cheiravam a cigarro. O gosto enjoativo e anestesiante na boca denunciava o que já era evidente. Sede terrível. Tentei parar de tremer e respirei o mais leve possível para não macular o silêncio. Precisava saber de onde (e principalmente de quem) veio aquela voz.
Não sei quanto tempo fiquei imóvel. Nenhuma voz. Nenhum berro. Ninguém repetiu meu nome. A urgência em urinar já me causava uma certa cólica na região pélvica. Percebi pela fronha que transpirava em bicas. Boca rachada de tão seca. Levantei grotescamente e um forte estrondo intracraniano me tombou novamente na cama.
Então me lembrei de tudo. Aquela dor curvilínea no topo da cabeça. A vista embaralhada. O enjôo. Tontura e boca amarga. As câimbras. Tudo me remetia àquela velha bolota no cérebro. A iminência de morte súbita. A iminência de morte lenta. A iminência da morte me despertou e só permitiu que eu fixasse o olhar no teto.
Seria de fato o teto ou meu olhar vagava na escuridão erma de um buraco negro? Estava de fato no meu quarto ou tentando regressar de um coma induzido? E se eu morresse naquela hora? Alguém me acharia a tempo de ser cremado antes da putrefação? Senti medo de ser enterrado. Ou de já estar enterrado. Me apavora a idéia de apodrecer. Seria lenta a morte de quem optou pela solidão? Seriam os auto-sufientes castigados com a ausência de choro e funeral? Alguém sofreria? E as dores? Meu Deus, quantas dores... Agora que tudo começou eu teria de ir ao médico. Raspariam minha cabeça. Abririam meu crânio com uma serra. Tico-tico? Elétrica? Ou seria uma serrinha manual? Lóbulo frontal esquerdo! Alguma parte direita do meu corpo perderia definitivamente os movimentos. Seria melhor morrer, então! Seria?
Passei a numerar as pessoas que chorariam com minha morte e tive vontade de rir. Seriam penalizados todos os que me fizeram sofrer. O remorso calado seria minha principal espada contra cada um de meus algozes inimigos. E os queridos? Imaginei a reação de cada um. Como choraria a ex. Como gritaria a atual. Como se descabelaria a progenitora. Como ficaria o pearcing na sobrancelha da filha. O que divagariam os colegas de trabalho. E o que escreveriam em seus blogues os amigos virtuais. Voltei a progenitora: auto piedosa berrando sobre um caixão esbanjando dor em troca de atenção. Típico dela. Que boa vingança! E eu ria. Gargalhava me vendo no caixão. Nosferatu.
Acordei com minhas risadas barulhentas. Dessa vez o sol já entrava pela fresta da janela e teimava em queimar um pedaço do meu rosto. Eu, atrasado como sempre. A verdade deixava de ter o lado lúdico de uma doença delicada com iminência de morte. A verdade voltava a ser uma banal ressaca.
Quem manda beber sozinho.
Posted at 06:06 am by estro
 |  |  | Saninha November 11, 2004 08:34 AM PST
tu me assustou e me apavorou. o texto tá bom, mas ele mexeu com uma parte de mim que eu não gosto de tocar. ele me remeteu a um passado do qual eu fujo diariamente. fazer o que? tu não poderia imaginar, não, tu nem faz ideia.
desculpa as palavras me fugiram agora. realmente não gosto disso. talvez goste menos disso do que o jeito como não gosto do teu silêncio.
está muito bom o texto, talvez tu só poderia ter escolhido outra morte, mas tu não poderia adivinhar de maneira alguma...
é, não poderia...
desculpe
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  |  |  | William November 11, 2004 08:36 AM PST
Humpf, quer dizer então que a "a ex" choraria e "a atual" gritaria pela morte do personagem aí, é? Sei não... acho que "a ex" é que gritaria, deixando para "a atual" algumas lágrimas de pesar. Já a progenitora, sim, ela faria igualzinho - e ainda um pouco mais se lha fosse permitido.
De todo o modo, você sabe que este texto não está ruim - como você costuma me dizer de suas produções. Vamos deixar de demagogia, por favor, e assumir logo as conseqüências do fazer literário. Que você sabe muito bens quais são - e dentre as quais não se encaixa o desleixo pela opinião alheia, ok.
E ah, dizem por aí que o ofício literário é tido como um dos caminhos para acertar as contas com nossos pais. E, não por acaso, nosso personagem deste texto, insiste em citar sua progenitora por duas vezes. Coincidência? Não creio. Imagino que o próximo texto se assemelhe a algo ao estilo "Acertando as contas com papai". Que Macaulyn Caulkin se cuide.
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  |  |  | William November 11, 2004 08:38 AM PST
Uma incoveniente vírgula foi parar entre as palavras "texto" e "insiste". Ignore-a, por favor. Principalmente alguém chamado Lektor. |  |
  |  |  | Werther-Pan November 11, 2004 09:04 AM PST
Cruelmente real... |  |
  |  |  | Saninha November 11, 2004 09:10 AM PST
beber sozinho é bem legal as vezes
as garrafas de martini e tekila que o digam.
grande amigas elas.
quebra esse silêncio, por favor?
eu ia escrever mais um texto, mas vou deixar para amanhã. |  |
  |  |  | Camila November 11, 2004 10:46 AM PST
o grito permanece e ecoa pelas madrugadas: - Júlio! são tantos nomes e berros.... |  |
  |  |  | Lektor November 11, 2004 11:20 AM PST
William, seu comentário não tem graça alguma...
Júlio, logo mais postarei minha impressão sobre esse texto... |  |
  |  |  | William November 11, 2004 11:53 AM PST
Não tem graça agora pois eu já fui vacinado contra suas investidas castradoras. |  |
  |  |  | Lektor November 12, 2004 01:51 AM PST
Investidas castradoras? Oras, "à l'enfer"! |  |
  |  |  | Lektor November 12, 2004 01:53 AM PST
Dessa vez, não vou pegar muito no pé! O texto é interessante, mas não é tão surpreendente. A última frase foi mal escolhida. Caso o indivíduo tivesse bebido junto com alguém o resultado teria sido diferente? Ele teria ficado menos bêbado na companhia de outro beberrão? Teria ele divagado menos caso tivesse se embebedado junto com outros?
Quanto à forma de escrita, pode ser notada a presença de frases e expressões que ora se enquadram num modo culto de escrever, ora num modo coloquial, ou seja, misturam-se registros lingüísticos incompatíveis.
Veja-se alguns exemplos:
“A urgência em urinar já me causava uma certa cólica na região pélvica.”
“Tentei sentir meu corpo dificultado pela dormência dos membros.”
“Aquela dor curvilínea no topo da cabeça.”
“Percebi pela fronha que transpirava em bicas.”
“A vista embaralhada.”
“Quem manda beber sozinho.”
As três primeiras orações não combinam muito com as três últimas! As primeiras parecem sair da ponta da caneta de um professor universitário. As últimas, ao contrário, lembram um tipo de escrita desenvolvida por um aluno da quarta série do ensino fundamental. Essa mescla de registros lingüísticos soa como um desleixo no ato de escrever, e parece que só não se tornou pior porque o texto é pouco extenso. Escrevendo-se pouco, equivoca-se menos!
Na verdade, quero dizer que o texto apresenta incoerências estilísticas. É óbvio que isso não dificulta a compreensão do texto, mas aquele que escreve deveria optar pelo uso de um estilo mais uniforme.
Noto também alguma falta de coerência quanto à semântica, isto é, quanto ao sentido de algumas palavras empregadas. Entendo que isso se deve à intenção do autor em tentar expressar a divagação da personagem, mas não quer dizer que se possa escrever “O silêncio devia ter uns vinte e oito quilos...”. Tal afirmação soa estranha mesmo no retratar de uma divagação. Realmente, o autor foi infeliz nesse ponto. Mas o texto em análise merece alguns elogios, pois quanto à “gramatiquice” não há muito que reclamar. Um pronome mal colocado aqui, um deslize na ortografia ali, a tal da vírgula mal empregada acolá, um hífen faltante numa palavra composta, um artigo com o gênero oposto ao substantivo ao qual se refere, e nada mais. Excetuando esses pormenores, o texto é satisfatório no seu conjunto.
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  |  |  | William November 12, 2004 06:30 AM PST
Como se alguém se importasse, Lektor. |  |
  |  |  | Lektor November 12, 2004 08:08 AM PST
Oras, quer então que eu apague meu blogue e deixe de comentar, ou seja, quer que eu desapareça para nunca mais voltar? (isso não é uma chantagem emocional!) |  |
  |  |  | Júlio November 12, 2004 08:31 AM PST
Lektor:
És o crítico mais marrento que eu já ví. Se isso não é chantagem é o quê???
Quantos melindres.
(em tempo: obrigado pela crítica. Levarei em consideração para futuros textos) |  |
  |  |  | William November 12, 2004 08:38 AM PST
Não leve nada em consideração dele, Júlio. Não passa de falácia incoerente. |  |
  |  |  | Lektor November 12, 2004 08:53 AM PST
Pô, agora sou taxado de melindroso! (risos)
JÚLIO, não é chantagem, mas só uma brincadeira (eu deveria der posto o RISOS no final, pois acho que o ponto de exclamação não bastou)
WILLIAM, diga-me, qual falácia não seria incoerente? |  |
  |  |  | William November 12, 2004 09:53 AM PST
Uma falácia bem construída, dessas que enganam os inúmeros laranjas do interior do Brasil. E chega, não vamos desvirtuar o assunto do blog. |  |
  |  |  | Lektor November 12, 2004 10:27 AM PST
assunto do último "post", você quer dizer... |  |
  |  |  | Saninha November 12, 2004 12:07 PM PST
texto novo, acabei de escrever.
obrigada pela indicação, disse à Camila que não me perdoo por não ter conseguido arrumar tempo para poder ver no cinema. Agora espero ansiosamente que chegue dezembro e eu possa vê-lo em casa.
Leste o e-mail? Espero que não tenha te assustado, nem nada parecido.
Cuide-se e tenha um bom final de semana. Estarei bem acompanhada dos tristes e pesados dias cinzas /amo/. |  |
  |  |  | carlota regina November 12, 2004 10:21 PM PST
QUERIDO JULIO,SOMOS TODOS DADOS A ALGUMA GENIALIDADE E,CÁ ENTRE NÓS,A SUA É DELICIOSAMENTE CRUA,SABOROSA,AL DENTE!BEIJOS ENCANTADOS...SUA AMIGA DA NET,C.R. |  |
  |  |  | Marcos November 13, 2004 01:45 PM PST
Sensaçãozinha filadaputa!
Na manhã seguinte uma vergonha...
E o gosto de chão de puteiro na língua seca...
E a tentativa de relembrar cada momentoda noite anterior...
Ea vontade de voltar pro bar tomar uma pra esquecer. |  |
   |  |  | André November 14, 2004 11:39 AM PST
O sonho é estranho como é estranho viver. |  |
  |  |  | Saninha November 14, 2004 08:06 PM PST
e se eu falasse que nessas noites frias, solitárias e chuvosas eu daria o mundo em troca de um abraço silencioso? uma conversa. alguém que compreendesse. bom, devo estar delirando a essas alturas já. e viva os remédios para dormir.
cuide-se
boa semana
;* |  |
  |  |  | Maya November 15, 2004 02:12 PM PST
Antes de mais nada, fiquei lisonjeada com seu comentário lá no Véu, obrigada, fico feliz que as palavras provoquem movimento.
E realidades inventadas também têm muita verdade nelas, não? |  |
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