" Idolatrado por todos, denegado por cada um, eu era um pago-por-cota e não contava senão com recurso a mim que não existia ainda, palácio de espelho deserto onde o século nascente mirava o seu tédio. Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo; conhecera até então apenas as vaidades de um cão de luxo; acuado no orgulho, tornei-me o Orgulhoso. "

Jean-Paul Sartre


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Tuesday, December 14, 2004
Então, tchau!!


Posted at 08:44 am by estro
Divague:  

Wednesday, November 24, 2004
Fato Verídico

- Central de Risco. Júlio. Bom Dia (nem resquícios duma exclamação).
-
Bom dia!!!! De onde fala??
- Da Central de Risco do banco, quer falar com quem?
-
Com quem estou falando??
- Ora, moça, isso eu já disse! Ao atender já falei meu setor e meu nome... O que deseja?
-
Há sim, é que eu pensei que Júlio fosse o nome do banco.
- A dona aí já ouviu falar em algum banco chamado Júlio?
-
É, de fato nunca ouvi... e qual o nome do seu banco?
- Caramba, se você ligou pra cá deve saber. Mais alguma pergunta? Eu não tenho o dia inteiro...
- Sr. Júlio, meu nome é Valéria Mendonça e eu represento a clínica Vitta Life, o senhor já ouviu falar?
- Não, mas eu não estou interes...

Preparei-me para desligar e antes que eu conseguisse, descarregou seu pente de balas:

- Pois bem Sr. Júlio. A nossa clínica já está no mercado há mais de seis anos - (???) - e é 'superbem' conceituada 'a nível de' tratamentos psicológicos. Temos uma ampla carteira de profissionais 'gabaritados' para garantir o melhor aos nossos clientes. São mais de duas mil pessoas atendidas e tratadas nesses últimos anos com cem por cento de satisfação garantida. O senhor provavelmente dever ter algum amigo que já se tratou conosco.

Pera lá! - pensei - O que eu estava entendendo era bizarro demais para ser verdade:

- Escuta aqui, moça, a senhorita está me vendendo o quê exatamente?
- Um tratamento psicológico!
- O quê??!!
- Sim, nós temos aqui em nossos computadores que o senhor está mesmo precisando. E é um tratamento psicológico que abrange - além das análises realizadas com nossa ampla carteira de prossionais gabaritados - terapia ocupacional, testes psicotécnicos para as mais diversas finalidades, atendimento por telefone ou internet 24 horas por dia, 'personal analisty', descontos especiais em nossa rede de farmácias de manipulação para toda alopatia receitada, desconto nas estadias em nossa clínicas de repouso, acompanhamento religioso - fez questão de frisar - 'ecumênico!', terapias em grupo, as mais diversas dinâmicas para os pacientes que sofrem de T.O.C. E não é só isso!!! Se o Senhor aderir ao nosso plano e parcelar em seu cartão de crédito, lhe enviaremos gratuitamente um Cartão de Afinidades, onde o senhor, dependendo da freqüência em suas consultas e da evolução do seu prognóstico, poderá ganhar locações de fitas grátis na rede Blockbuster, ingressos para o Cinemark e passaportes da alegria para o Playcenter. Não é demais?! Isso sem falar em nossa comunidade no Orkut, nos grupos de discussão no Yahoo e o nosso chat que já arrumou até casamento, acredita?

- ... !? (eu sem resposta, estupefato!)

- Eu sei, Sr. Júlio, o senhor está sem palavras... Afinal, não é todo dia que um pacotão de vantagens como esse cai em nossas mãos. O senhor é um homem inteligente e tenho certeza que vai aproveitar. São apenas cinco parcelas de R$ 256,40 para um número ilimitado de consultas. Sabe quanto custa uma única sessão de terapia paga particularmente? Esse preço é um presente nosso para pessoas especiais - senti de fato, maldade nesse 'especiais' - . Pode me fornecer o número do seu cartão?

Nessa hora gargalhei ao ponto do meu chefe me chamar a atenção com o olhar.

- Pode parar garota, isso só pode ser um trote. Vamos, revele! Quem é você? Andréa Muroni? Sim só pode ser você!! Ou a Marpessa?? Não, a Marpessa não faria uma coisa dessas... Érika Valença? Sana Gerhard? Vamos, já perdeu a graça!! Já sei, Carlota Regina?? Ou a eloqüente Camila?? Diga, diga...

Senti um tom de sobriedade que beirava uma ofensa pessoal:

- Sr. Júlio! Isso não é um trote. É meu trabalho. Por favor, trate-me com mais respeito!
- Está bem, me desculpe, mas eu não quero o seu produto!
-
Mas é uma oportunidade rara...
- Não, não... tenha um bom dia.
-
Veja bem, não deslique. Vá me dizer que o senhor não está precisando de um tratamento psicológico?!
- Oras, a senhorita já está passando dos limites, tenho que ressaltar que esta ligação está sendo gravada e eu posso processar a sua empresa por me importunar num horário de expediente. E além do mais me chama de maluco...
-
Tá vendo?
- Tô vendo o quê?
- Por qualquer coisinha o senhor já fica irritado, assume toda essa postura de superior, quer passar por cima de todos como um trator e ainda lança mão arbitrariamente do código de defesa do consumidor por qualquer motivo. Isso é preocupante, não acha??!! Tenho experiência suficiente como operadora de telemarketing para afirmar que isso é um problema com seu superego!

- ... (eu tentando controlar o 'vápraputaquepariu' que estava para golfar).

- No mínimo, um medo subconsciente da castração!
- Já sei, você deve ser a prima do William Oliveira. Eu sei que vocês adoram passar trotes juntos. Vamos, ponha o Will ao telefone.
- Sr. Júlio!!! Eu não tenho culpa dos seus complexos de inferioridade perante todos os amigos que o senhor acaba de citar...
- Como?
-
Sim, este diálogo está carregado de evidências nas entrelinhas. E não pense que só porque eu falo 'superbem' e 'a nivel de', eu não possa lhe pré-avaliar psicologicamente. O senhor beira o sadismo, sabia?
- Faça-me o favor!!!

Bati o telefone com muita raiva. Aquela garota de fato me tirou do sério.
Respirei fundo. Uma, duas, três vezes...
Fiz alguns exercícios da ginástica laboral para relaxamento.
Levantei, fui ao banheiro, tomei uns goles d'água. Voltei ao meu posto renovado e até achando uma certa graça naquela situação.
Toca novamente o telefone:

- Central de Risco. Júlio. Bom dia.
-
Sr. Júlio, pense bem: nós damos acompanhamento especial para quem tem dislexia... esse seu 'não' é apenas denegação!
- Cacete!!! Vá tomar no... tum, tum, tum, tum, tum...

E foi exatamente assim que começou meu dia. Eu ainda pego pelo colarinho a criatura divina que me passou esse trote.


Posted at 10:54 am by estro
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Friday, November 19, 2004
o que É Isto??

Esta eu roubei lá do blog da hilária e impagável Andréa Muroni:



Isto É 17/11/2004, nº 1832:

- Fique longe de mim, seu poeta de quinta ordem - disse Eduardo Portella.
- Você não é de nada, é um b... - respondeu Lêdo Ivo.

Foi assim, depois de um empurrão, que começou esse mundano bate-boca entre dois imortais da Academia Brasileira de Letras: Eduardo Portella, 72 anos, e Lêdo Ivo, 80. A briga aconteceu no sábado 5, na festa de aniversário do presidente da ABL, Ivan Junqueira. Eduardo e Lêdo não se falavam (e não se xingavam) havia 15 anos.

ISTO É: - O que aconteceu?
LÊDO:
Eu fui agredido pelas costas. Discutimos e eu joguei um refrescante copo de Coca-Cola naquela cabeleira indecorosa, de onde exala um cheiro nauseabundo.

EDUARDO: Houve uma trombada física e eu o empurrei. Ele não me jogou vinho nem Coca, foi água mesmo. E não é poeta de quinta, mas de vigésima categoria.

*******

Porra, fala sério: "... cabeleira indecorosa, de onde exala um cheiro nauseabundo." é tudo que eu queria ter escrito!!!!

Posted at 09:13 am by estro
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Thursday, November 11, 2004
Demônios Noturnos

Acordei berrando um 'O quê?' assustado e ofegante.
Alguém gritou meu nome nitidamente. Bravo, como se fosse cobrar uma dívida. Tremi. O silêncio devia ter uns vinte e oito quilos e quase trinta e quatro graus. Tentei me localizar em alguma fresta de janela, mas como o apartamento é novo demorei para recobrar a oriente. Consegui. Graças a uma sirene estridente na rua e ao relógio do vídeo cassete piscando zero hora constantemente. Zero, zero, zero, zero... Umas três e meia da madrugada, talvez. Eu não me lembrava de uma noite tão escura nos últimos tempos.

Tentei sentir meu corpo dificultado pela dormência dos membros. Percebi que ainda usava sapatos. Horrível sensação já que cumpro religiosamento o ritual banho-perfume-pijama antes de deitar. Uma velha jaqueta de couro marrom me sufocava . Minhas mãos cheiravam a cigarro. O gosto enjoativo e anestesiante na boca denunciava o que já era evidente. Sede terrível. Tentei parar de tremer e respirei o mais leve possível para não macular o silêncio. Precisava saber de onde (e principalmente de quem) veio aquela voz.

Não sei quanto tempo fiquei imóvel. Nenhuma voz. Nenhum berro. Ninguém repetiu meu nome. A urgência em urinar já me causava uma certa cólica na região pélvica. Percebi pela fronha que transpirava em bicas. Boca rachada de tão seca. Levantei grotescamente e um forte estrondo intracraniano me tombou novamente na cama.

Então me lembrei de tudo. Aquela dor curvilínea no topo da cabeça. A vista embaralhada. O enjôo. Tontura e boca amarga. As câimbras. Tudo me remetia àquela velha bolota no cérebro. A iminência de morte súbita. A iminência de morte lenta. A iminência da morte me despertou e só permitiu que eu fixasse o olhar no teto.

Seria de fato o teto ou meu olhar vagava na escuridão erma de um buraco negro? Estava de fato no meu quarto ou tentando regressar de um coma induzido? E se eu morresse naquela hora? Alguém me acharia a tempo de ser cremado antes da putrefação? Senti medo de ser enterrado. Ou de já estar enterrado. Me apavora a idéia de apodrecer. Seria lenta a morte de quem optou pela solidão? Seriam os auto-sufientes castigados com a ausência de choro e funeral? Alguém sofreria? E as dores? Meu Deus, quantas dores... Agora que tudo começou eu teria de ir ao médico. Raspariam minha cabeça. Abririam meu crânio com uma serra. Tico-tico? Elétrica? Ou seria uma serrinha manual? Lóbulo frontal esquerdo! Alguma parte direita do meu corpo perderia definitivamente os movimentos. Seria melhor morrer, então! Seria?

Passei a numerar as pessoas que chorariam com minha morte e tive vontade de rir. Seriam penalizados todos os que me fizeram sofrer. O remorso calado seria minha principal espada contra cada um de meus algozes inimigos. E os queridos? Imaginei a reação de cada um. Como choraria a ex. Como gritaria a atual. Como se descabelaria a progenitora. Como ficaria o pearcing na sobrancelha da filha. O que divagariam os colegas de trabalho. E o que escreveriam em seus blogues os amigos virtuais. Voltei a progenitora: auto piedosa berrando sobre um caixão esbanjando dor em troca de atenção. Típico dela. Que boa vingança! E eu ria. Gargalhava me vendo no caixão. Nosferatu.

Acordei com minhas risadas barulhentas. Dessa vez o sol já entrava pela fresta da janela e teimava em queimar um pedaço do meu rosto. Eu, atrasado como sempre. A verdade deixava de ter o lado lúdico de uma doença delicada com iminência de morte. A verdade voltava a ser uma banal ressaca.

Quem manda beber sozinho.


Posted at 06:06 am by estro
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Wednesday, November 10, 2004
Qualidade

Enquanto esperam (sentados, espero) que seja publicado nesse blog um texto no mínimo legível e surpreendente, leiam algo que realmente vale a pena:

Regras para falar ao telefone

Aproveitem e devorem todo o blog dela.
Marpessa existe, sim!!
Embora eu viva dizendo pra ela o contrário!!

Posted at 07:01 am by estro
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Thursday, November 04, 2004
Sara Reis

"Isso, mate-me com sua ausência.
Fica aí, assim, sem falar comigo. E quem disse que eu preciso ouvir a sua voz?? Quer saber de uma coisa? Ela é irritante! Você é irritante! Petulante. Se sabe dominar seus sentimentos, guarde-os só pra você! Guarde-se pra você! Ninguém depois de mim há de o querer! Ficará à mingua, a mendigar por um tântico de amor. Um tântico assim ó, e eu destilarei um sonoro 'não!'. Aí se lembrará de todo amor que eu um dia quis  dar e ainda bem, mas muito bem mesmo, você não aceitou. É que eu me amo mais do que a mim mesma, eu sou tudo pra mim! Eu me basto, eu me sustento, eu me entendo, eu me agrado e eu não poderia ter nada melhor que eu! Gostou?! Se não, o problema é seu!! Olha só, gostaria que me visse assim: eu tão bem, sem precisar de você. Independente. Coerente. Coesa. Há! Como é bom ser feliz sozinha!!"

- Alô?!... oi, é você??... Que bom... sabe de uma coisa? Estava pensando em nós agorinha! Coincidência, não é?... Saudades. Não, eu não bebi, juro... Sim, estou bem! Não precisa se preocupar. Eu também. Eu também o amo!

"...muito mais que a mim."

Posted at 04:44 am by estro
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Thursday, October 28, 2004
Baba de Moça

(republicação)


Aquela sensação de frescor causada pela falta da peça íntima, revelava-lhe uma coragem absurda, que nem de longe imaginava ter.

Antes de atravessar o quintal, borrifou sobre a pele um perfume suave de vanila. Abriria o apetite de sua presa. Molhou levemente a nuca e pulsos para amenizar o calor estonteante de interior paulista. Sem vento, assoprou dentro do vestido de tecido leve e estampado com flores tom pastel. Passou um claro baton. Retirou em seguida com o punho. Queria parecer primitiva. Livrou-se dos chinelos. Descalça seria mais selvagem. Despudorou-se, enfim, das peças íntimas, deixando as pontas dos seios marcarem o pano leve, provocante. As coxas abriam e fechavam. Olhava no espelho, com ares de devassa, as partes roseadas cobertas por pelos negros mal aparados. Era a libertação. Atravessar o quintal sem as amarras sufocantes das peças íntimas.

O toque do pé na grama, excitou-a. Uma brisa morna adentrou o seu vestido. Sentiu calafrios. 'Que sensação maravilhosa' - pensou. Descobriu naquela hora que o perigo aguçava-lhe a libido. O trajeto no quintal pareceu infinito. Infinitos dez passos da porta da cozinha até a porta da garagem onde labutava seu esposo. De longe ouvia o choro manhoso de sua criança e sentia o cheio forte da lingüiça paio que cozinhava  no feijão. O cheiro deixava insignificante seu perfume de vanila, mas nem de longe tirava-lhe o desejo. Rasgava-lhe o interior, o tal desejo. Sua carne tremia sobre os ossos de desejo. E o calor. Aquele calor da excitação que sobe pelos lados do pescoço deixava seu rosto vermelho e a pele mais quente. Sua respiração ofegante quase a impediu de falar:

- Não quer parar um pouco?

O esposo estava sob um carro. Concentrado num pequeno vazamento de óleo. Nem deu importância ao convite.

- Tá cedo ainda para comer - respondeu, grosso, sem desperdiçar com ela atenção.

Pulou felina sobre o capô. Abriu as pernas. Começou a se mexer, balançando forte o carro suspenso apenas pelo frágil macaco. Passou a pular, ignorando as admoestações do marido. Era o puro prazer. Primitivo. Caprichou em seus esforços, fazendo o suporte envergar. Parou apenas quando escutou um grito medonho e o estrondo forte das rodas caindo ao chão. Ficou em posição de gata. Olhando para o chão desceu com cuidado, pois descalça, não queria manchar os pés de sangue. Saiu da garagem para atravessar saciada, sem as malditas peças íntimas, o quintal.

Desta vez foram mais de dez passos. Não voltou a cozinha. Saiu pelo portão. Dentre suas pernas bambas escorriam algumas gotas de um líquido espesso. Baba de moça. Nunca sentira tão boa sensação.

Posted at 08:14 am by estro
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Wednesday, October 20, 2004
À

16:56:35.... Silêncio pesado. O ponteiro dos segundos ressoa como único objeto animado entre vivos inanimados. A costumeira onomatopéia dos relógios não acompanhou a evolução. O tic-tac tornou-se démodé em meio a modernidades taiwanesas. Transformou-se num click- click quase gnosiológico.

Algum monografista há de quantificar o peso e o calor do silêncio. Sim, eles existem.

Em pouco mais de uma hora encerro mais este extrato da minha angustiada rotina profissional. Extensos minutos de ócio ainda me restam. O tédio na motivação me corrói as aspirações financeiras e o prometido plano de carreira. Balelas da consolidação das leis trabalhistas.

A conveniência me pede inspiração para aproveitar essa hora de ócio remunerado e escrever. Mas não consigo pensar em nada original. Não acho em meus resquícios de pseudo-intelecto um sentimento humano mal resolvido. Nem uma situação epistemológica e constrangedora para uma personagem erudita pós-moderna. Nem uma crítica mentirosa sobre algumas mentiras por outros já resenhada. Sequer uma piada dissecada e reescrita em palavras nobres para parecer uma idéia surpreendente. Nada.

Uma certa inanição mental regada a um tico de co-dependência afetiva me surrupia um suposto talento que alguns porfiam em dizer que tenho.

Portanto, restam-me jaculatórias. Clichês e aleatórias:

- Decepcionem-se!

- Depreciem-me!

- Depreendam-se e releiam a si.

Sugiro que uma alma benevolente me ensine nessa caixa de comentários o que faço para recobrar a auto-suficiência. Ou melhor. Que um (meta)físico com tendências quânticas da USP me ensine a pormenorizar um contratempo de mais de 500 Km em fração de segundos.

E com cálculos direcionados a otimizar abraços quentes, não ao vestibular.


Posted at 09:03 am by estro
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Friday, October 15, 2004
De palavras fáceis

Em dez minutos o rádio-relógio te acordará.
Você dorme de uma forma bela, diferente, não sei... Nunca cansei de te ver dormir mesmo depois desses anos todos. Tua imagem não me cansou. Literatas palavras eruditas não me faltariam para te descrever assim, tão shakespeariana. Mas dispenso as belas formas em homenagem ao teu suposto sono.

Falta pouco. Hoje é o dia em que vou embora. Deixei para última hora o terror em te falar isso. Não sei falar essas coisas que te magoam. Em dez minutos te magoarei. Tem de ser ao acordar. Horas a mais aumentariam a tormenta.

O relógio me condena com o primeiro açoite. Pelo teu respirar sei que finge dormir tanto quanto eu. Viro para calar o contratempo e aproveito para te dar as costas. Esta será a primeira de muitas daqui pra frente.

Sinto seu beijo úmido em minha nuca. E esse sopro para resfriar a saliva me causa arrepios indefiníveis. Sua língua já tão bem acordada percorre meu pescoço. Estou teso, o misto de desejo e medo petrificam a ereção. Não há como negar ao toque da sua mão. Meu corpo me condena e sempre teima em dizer o oposto do que quero falar.

Me fervilha a consciência e teus dedos me queimam o falo. 'Deus, me deu o corpo para a condenação?'. Gostaria que nessa hora masturbasse a minha mente e que as palavras certas ejaculassem em gozo farto.

Mas não! Tua boca quente me amorna a brasa e deliro em suspiros numa contradição banal entre pensar e sentir. Os gemidos de angústia se misturam aos da leve dor do prazer. E eu ali, em momentos eternos a te corresponder em partes púdicas, comendo teus suspiros de gosto. Imaginando teus soluços de choro.

Me prende a pélvis pela boca como se esta fosse a última vez. E de fato a é. Tenho alguns minutos antes de terminar. Tenho o tempo necessário para aprender a dizer as coisas que te magoam.

No ímpeto te seguro a cabeça e maldosamente me acabo antes que se afaste. O gosto meio amargo da agressão não foi o suficiente para que me odiasse. Como queria que agora me odiasse. Por hoje. Mas indevidamente me ama. E demonstra. E agradece. Como se abrisse o peito para uma primeira facada.

O olhar mudo é prenúncio.
Tem de ser agora.
As palavras ensaiadas durante a madrugada parecem perder o sentido ante a luz fraca que adentra a fresta da janela. Palavras de adeus têm medo da claridade. Eu tenho medo da claridade. Estou com vergonha de te encarar na luz.

- Tenho uma coisa pra te dizer.

- Psssss... Não precisa falar nada.

E antes que eu responda, me cala com um beijo amargo de gosto meu.
Você sempre soube que hoje começa o fim.

Posted at 12:22 pm by estro
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Friday, October 08, 2004
Falo

Inesperadamente, após poucos meses de encontros e alguns desencontros, quilômetros em palavras intelectualmente dissertadas, conversas profundas, profanas e agumas horas (se somadas, dias) de espera, encontram-se na cama.
Agora ali, naquela arena, não há uma citação cabível, uma tela de cinema, a crítica de um bom livro ou divagações sobre o divino que possam distrair-lhes. Provavelmente não iniciarão, nus, uma conversa sobre literatura, política ou viagens. Não vão, no ato, dialogar, nem trocar idéias. 
Sós, sem palavras nem frases, sem objetos nem roupas. Sem uma peça íntima ou artigo de revista para cobrir-lhes o que até então seria possível esconder um do outro: o corpo, a carne, os pelos, a pele.
Eis a hora que arriscarão fatos além de palavras. Um discurso de imagens com atos fálicos e cheiros. Serão docilmente malvados um com o outro. Vadiarão cada um ao seu modo, de olhos fechados e concentrados. No corpo alheio, em zonas seguras onde acumula-se sangue pulsando. Se castigarão um tanto. Intrusos um do outro, dissolutos, soltos, saltos, soluços, suor, dor - só um tanto - gana, gula, pernas, braços. Uma ação, pulsão de dentro para fora e de fora para dentro, deixando-os no ápice fora de sí mesmos. Susurros e um teto azul claro.

- Aceita um cigarro??
- Ué, mas nenhum de nós fuma...
- Então pega aquele livro do Saramago, ali pra mim!?
- Qual? Não estou enxergando...
- Ensaio Sobre a Cegueira.
- Urgh! Prefiro Baudelaire!

Posted at 01:49 pm by estro
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